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Reciclando Papéis
Sociais
Uma
das precursoras na prática da fabricação
do papel reciclado artesanal juntamente com Otávio
Roth e Marlene Trindade, Zuleica Nunes da Silva Medeiros foi
professora da UnB e pesquisadora não só de papel
reciclado artesanal mas de tintas e produtos naturais. Sua
atuação não se restringe à preocupação
com o meio ambiente, pois engloba a questão social
e cultural.
Em 1985 trabalhou com meninos de rua, enfatizando
não só a reciclagem mas a inserção
social dessas crianças. O papel reciclado produzido
não teve boa aceitação no mercado, pelo
preconceito de já ter sido usado e, além disso,
por ser feito por meninos de rua.
Em 1989 ela pediu demissão da UnB e
se mudou para Florianópolis. Escolheu a cidade pela
sua história de preservação ambiental
e lá reiniciou a produção do papel artesanal,
associada a atividades de inclusão social com analfabetos
e portadores de necessidades especiais. Criou a empresa Papel
da Terra e começou a comercializar seus produtos.
Por sorte nossa, fez contato com a Ecomarapendi, que também
estava iniciando suas atividades. Seus papéis alcançaram
bons níveis de venda no Ecomercado (Rio de Janeiro,
RJ) graças a uma representação da empresa
na cidade. Nesta mesma época chegou a exportar produtos
confeccionados com papel reciclado para Londres, Portugal
e França. Houve grande aceitação, mas
infelizmente não tinha mão-de-obra suficiente
para atender a demanda.
Há seis anos Zuleica foi morar em frente
ao Presídio Masculino de Florianópolis, e passou
a reciclar papel com os detentos, criando o Instituto da
Terra, voltado para a ação social, ambiental
e cultural. A reciclagem artesanal de papel no presídio
tem convênio com a Secretaria de Estado e Cidadania
de Santa Catarina e conta com a colaboração
da comunidade do entorno, que fornece grama e bagaço
de cana, além da empresa SCGAS (distribuidora de gás
natural), que fornece o papel recolhido em seu programa de
coleta seletiva.
A unidade de fabricação de papel
segue padrões internacionais e foi instalada nas galerias
do presídio, ocupando uma área de 80m²
em frente à gráfica.
Os detentos contam com treinamento fixo
e são requisitados conforme a necessidade. A cada três
dias de trabalho, têm a pena reduzida em um dia. Zuleica
conta que são constantes os pedidos de trabalho. A
remuneração está diretamente ligada à
demanda por parte das empresas.
Dentre
os pontos positivos do trabalho está a baixa reincidência
no crime (em 6 anos de trabalho, o índice não
chega a 5%), sendo que as tentativas de fuga e rebelião
diminuíram muito. O trabalho foi reconhecido pela ONU
como uma das 12 melhores Práticas Urbanas do Brasil
no Setor Habitat sobre o tema Habitação no
Presídio, no ano de 2001, além de ter sido
premiado pela FGV em 2002 com o prêmio Gestão
Pública e Cidadania. Segundo ela, os detentos fizeram
a seguinte leitura: "O presídio é uma lata de
lixo e, conseqüentemente, os detentos são o lixo
da sociedade". Reciclar papel representa, para eles, a reciclagem
deles próprios _ a reciclagem do seu papel na sociedade.
Outras práticas vêm sendo implementadas na valorização
dos detentos como pessoas, preparando-os para sua volta à
sociedade. A Fundação Santa Cabrini, órgão
do estado do Rio de Janeiro, apóia desde 2001 a Oficina
de Aproveitamento e Reciclagem Artesanal de Papel, que
faz parte do Projeto de Ressocialização, Capacitação
e Cidadania, abrangendo tanto internos quanto seus familiares.
Hoje, 29 detentos capacitados pela professora Ana Sobral produzem
folhas, envelopes, convites, calendários, bolsas e
outros produtos em papel reciclado artesanal com o nome de
Reciclados-LB, comercializados pela própria Fundação
e por um dos familiares dos detentos. Em Guarulhos (SP), os
internos participam do projeto da empresa Ramblas Propaganda
e Design em Papel, montando cartões tridimensionais,
sendo alguns de papel reciclado artesanal. De acordo com a
necessidade da empresa, são aplicados testes de aptidão
para selecionar os detentos mais capacitados, que são
treinados e incorporados ao projeto. Segundo Francisco Eduardo
Salvador, diretor de Segurança e Disciplina, esses
detentos estão produzindo em média cerca de
2500 cartões por dia.
O exemplo pioneiro do Instituto da Terra, bem
como as demais iniciativas aqui citadas, evidenciam a eficácia
da reciclagem como instrumento de transformação.
CONTATOS:
Instituto da Terra
Zuleica Nunes da Silva Medeiros
zuleica@institutodaterra.org.br
Tels.: (48) 4833-30857 / 9114-4611
Ramblas Propaganda e Design em Papel
Tels.: (11) 5507-2298 / 5505-2560
http://www.ramblas.com.br
Fundação
Santa Cabrini
Tels.: (21) 2556-4229 / 2293-8248 / 3399-1400
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