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O valor social dos materiais recicláveis

Thursday, September 9th, 2010

Apesar das perspectivas positivas que a Política Nacional dos Resíduos Sólidos e o Pacto pela Reciclagem (compromisso estabelecido entre a Prefeitura do Rio e o Governo do Estado do Rio de Janeiro) trazem para o desenvolvimento de uma gestão de resíduos mais adequada em termos sócio-ambientais, a realização da coleta seletiva no município do Rio de Janeiro ainda é um desafio.

Hoje, a atividade de reciclagem no Brasil é alimentada em grande parte pelo trabalho de catadores e cooperativas. E para cumprir com seus compromissos de coleta, arcam com custos relativamente altos, especialmente no que tange ao transporte de materiais, e acabam tendo uma renda líquida muito baixa.

Na reportagem da revista “Razão Social”, do jornal O Globo, encontramos exemplos de como a articulação direta entre grupos da sociedade e cooperativas de catadores pode resultar em situações de ganho total. Condomínios e residências – mesmo que não sejam atendidos pela coleta seletiva da Comlurb – conseguem ter seus recicláveis adequadamente destinados. E as cooperativas de catadores têm quantidades cada vez maiores para coletar em um mesmo local ou região, fazendo com que seus custos de operação sejam otimizados.

Disponibilizamos abaixo a reportagem do caderno Razão Social do jornal O Globo. Boa leitura!

Lixo Como ativo Social

Condomínios no Rio fazem parceria com catadores para dar
destino correto a recicláveis na cidade
Camila Nobrega – camila.nobrega@oglobo.com.br

É terça-feira, e uma faixa na entrada do condomínio Fazenda Passaredo, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, lembra aos moradores: “Hoje é dia de coleta seletiva”. Antes do fim da tarde, quando o caminhão da cooperativa de catadores BarraCoop passa, a professora Maria Aparecida França, moradora e coordenadora do centro de meio ambiente do local, faz uma caminhada por todo o condomínio, contando quantas casas deixaram o lixo reciclável na porta. Quando há um novo adepto, é motivo de comemoração. O Fazenda Passaredo fica numa área ainda não atendida pelo sistema público de coleta seletiva da Comlurb, mas, por conta da parceria com a Cooperativa, deixa de enviar ao Aterro de Gramacho cerca de uma tonelada de lixo por semana e dá sustento a dez famílias de catadores. Iniciativas como essa são meninas dos olhos de especialistas de resíduos na cidade. Ao lado do novo aterro sanitário que vai receber o lixo dos cariocas em Seropédica a partir de 2011, são formas de criar uma gestão mais sustentável de resíduos, tendência que vai virar obrigação após a regulamentação da Política Nacional de Resíduos sólidos do país, ainda este ano.

O que fez Aparecida começar a agir foi o fato de ela ver, durante anos, a Comlurb misturar todo o lixo, mesmo o reciclável, e levar tudo para um único lugar, o Aterro de Gramacho. Há cerca de um ano, ela e 15 moradores voluntários descobriram que era possível montar um sistema de coleta seletiva diretamente com cooperativas.

- É muito gratificante. Agora sabemos para onde vai nosso lixo, e buscamos sempre reduzi-lo. Quando se começa com uma ideia, surgem várias outras e, muitas, como a parceria com a cooperativa, são simples.

Lidar com o lixo é um desafio, e cada vez descobrimos mais alternativas – contou Aparecida.

A BarraCoop está sendo beneficiada desde dezembro de 2009, recolhendo o lixo reciclável doado pelo condomínio e, segundo Aparecida, a coleta funciona muito bem. Mas o início do projeto de gestão do lixo no local foi bem antes, em 2007, quando o Centro de Meio Ambiente foi criado. O primeiro passo foi a compostagem a partir de resíduos orgânicos, que hoje serve de adubo para canteiros de plantas e hortas do condomínio.

Com isso, o Fazenda Passaredo deixou de enviar para Gramacho toneladas de resíduos por mês, como folhas, galhos e até plantas que eram descartadas.

Depois, ainda vieram os projetos de doação de óleo de cozinha para produção de sabonete para outra cooperativa, e um laboratório de recuperação de plantas. Segundo Aparecida, o objetivo no condomínio é chegar ao lixo zero. Ele já foi premiado duas vezes pelo Sindicato da Habitação do Rio de Janeiro: – Até o ano passado ainda saíam resíduos de jardinagem e até troncos daqui. Agora isso acabou.

Só o lixo de cozinha e de banheiro ainda são problemas difíceis de resolver em um condomínio.

Mas estamos investindo na educação das nossas crianças e jovens. Não falta informação.

A parceria direta com os catadores também é opção em bairros já atendidos pela coleta seletiva da Comlurb. A vantagem é que se diversificam os catadores beneficiados (a Comlurb só tem cinco cooperativas cadastradas), como no caso do condomínio Solar das Laranjeiras, que leva o nome do bairro onde fica, na Zona Sul do Rio. Há pouco mais de um ano, os moradores buscaram uma cooperativa que havia anunciado no jornal, a Coopar, e iniciaram a parceria.

A diferença é que, nesse caso, o prédio não doa os materiais, mas cobra um preço baixo aos catadores.

Segundo o síndico, o aposentado De Sordi Roncetti, no início os catadores passavam no prédio uma vez ao mês, e hoje já passam quase semanalmente: – A quantidade de recicláveis tem crescido muito. Os moradores estão colaborando, porque veem que os resíduos têm bom destino. E os funcionários são motivados, porque o dinheiro que recebemos da venda dos materiais é revertido para eles. Quando a cooperativa chega, já está tudo separado.

Em dia de coleta, a visita é mesmo rápida, mas suficiente para que o síndico e os funcionários mantenham uma boa relação com os cooperativados, que deixam de ser generalizados como catadores, e ganham nomes e histórias próprios. No caso do Solar das Laranjeiras, por exemplo, o responsável é o presidente da Coopar, Jorge Souza: – Quando as pessoas começam a entender todo o mercado que existe por trás do lixo, passam a dar mais valor ao nosso trabalho. E, pegando na fonte, a gente não fica na mão dos atravessadores.

Mas ainda tem muita gente que não colabora. Tem prédios que querem participar, mas não conseguimos dar continuidade, porque eles não juntam material suficiente – disse.

Os catadores da Coopar saem da Ilha do Governador, onde fica a sede da cooperativa, e fazem o longo percurso até Laranjeiras praticamente toda quinta-feira. Mas as visitas poderiam ser mais frequentes, por exemplo, se houvesse mais condomínios adeptos no bairro. Para as cooperativas, o custo da logística de coleta é alto, já que, por enquanto, não há apoio da prefeitura.

Esse foi o principal motivo de um projeto ousado da Associação de Moradores de Ipanema (Ami), também na Zona Sul do Rio, ter fracassado. Intitulado Programa de Coleta Seletiva Solidária, o projeto foi lançado no final de 2009, e conseguiu adesão de 20 condomínios do bairro, que destinariam seus resíduos para a Cooperativa de Catadores do Complexo do Alemão (CoopCal). De acordo com o responsável pelo programa, Rafael Durão, durante quatro meses a coleta funcionou bem, com caminhões que eram bancados pela própria Ami, e a quantidade de resíduos saltou de 700kg para 1,5 tonelada por semana. Mas, sem apoio de empresas ou da prefeitura, não foi possível manter a coleta: – Foi um programa piloto e funcionou muito bem, principalmente porque sabíamos que os resíduos estavam sendo doados a uma cooperativa muito necessitada. Eles foram responsáveis, passavam no dia certo. Mas não conseguimos apoio dos condomínios ou de empresas da região para manter a parceria, aí não deu para co ntinuar.

Para a consultora ambiental da Recicloteca da ONG Ecomarapendi, Bruna Beck, o difícil é que as pessoas entendam o valor social de uma parceria como essa, e a responsabilidade que cada um tem de dar destino certo aos seus resíduos. Segundo Bruna, é preciso lembrar que a coleta seletiva no Brasil, hoje, depende do trabalho dos catadores: – Quando há parceria com os catadores, especialmente se é doação, é maravilhoso. As empresas, por exemplo, que são grandes geradoras, pagam pela coleta do seu lixo e poderiam até economizar com uma parceria dessas. Mas é necessário dar apoio ao catador, pois ele está fazendo um trabalho que é bom para todo mundo. Os resíduos são muito nocivos à saúde humana e ao planeta.

De acordo com a consultora, as cooperativas pagam diárias de caminhões de mais de R$ 200 para cada dia de coleta, além de outros custos. Mas o governo estadual e a prefeitura do município prometem começar a mudar essa situação ainda este ano. No início de agosto, ambos assinaram o Pacto da Reciclagem, que contou ainda com o Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclável, a Firjan e administradores de condomínios da cidade, para ampliar a reciclagem no Rio. Hoje, apenas 3% do lixo do município são destinados para este fim. Segundo o subsecretário estadual do Meio Ambiente, Gelsom Serpa, o objetivo é dar estrutura à Comlurb e aos catadores: – O estado vai apoiar a prefeitura, disponibilizando galpões para a triagem dos recicláveis. Vamos estabelecer também um valor mínimo a ser pago aos catadores por serviços ambientais e o município vai iniciar uma campanha com os administradores de condomínios para dar força à coleta seletiva.

As medidas vêm na esteira da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que foi aprovada no Congresso em julho e prevê responsabilidade compartilhada por todos os agentes na gestão de resíduos, incluindo moradores e empresas. A lei deve ser regulamentada em novembro e traz exigências como ampliação da coleta seletiva no país, e o fim dos lixões a céu aberto num prazo de quatro anos.

Como destinar o lixo corretamente

PARCERIA COM CATADORES: O projeto Recicloteca, da ONG Ecomarapendi, dá informações sobre cooperativas de catadores que possuem estrutura para fazer coleta seletiva na cidade (recicloteca.org.br). Outra opção é o site do Compromisso Empresarial para Reciclagem ( cempre.org.br). ou da Companhia de Limpeza Urbana do Rio Comlurb (comlurb.rio.rj.gov.br)

EMPRESAS: Algumas empresas já possuem coleta seletiva em parceria com catadores. É o caso do projeto Rio Sustentável (riosustentável.org), que chegou a restaurantes e casas de show do Pólo Rio Antigo, na Lapa, e agora será implantado por restaurantes da Zona Sul.

COOPERATIVAS: BarraCoop (tel: 34146985 ou 82578169), Coopar (78484761 ou 3888-5514) e CoopCal (3882-4390 e 9284-8228)

Veja a reportagem no site do jornal O Globo

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Qual a importância da reciclagem?

Wednesday, August 25th, 2010

Todos os dias, um volume enorme de embalagem é descartado no lixo como se fosse lixo, mas são embalagens que poderiam ser destinadas para a reciclagem, como plástico, papel, alumínio e vidro.

O processo de reciclagem é composto de várias fases, porém sua realização depende de uma ação fundamental: a separação prévia dos materiais. Misturar os materiais recicláveis com o lixo prejudica o seu reaproveitamento. Se o material reciclável for armazenado de forma separada, possibilita-se um maior aproveitamento.

Esse é só o começo do que chamamos de coleta seletiva. Trata-se da separação e recolhimento, desde a origem, dos materiais potencialmente recicláveis. E nós, consumidores, temos um papel importante nesta separação.

Já “reciclar” significa transformar de modo artesanal ou industrial um produto usado em um novo produto, igual ou diferente do original. Essa transformação deve ser química e/ou física, daí a diferença do reaproveitamento que não altera a matéria de maneira tão profunda. Além disso, a reciclagem tem como benefícios a economia de matéria-prima, de energia e de água.

Quando refletimos e agimos sobre a questão do lixo em casa, na escola, no trabalho, na prefeitura e na rua, percebemos o quanto é possível que cada um de nós faça uma diferença enorme diante deste problemão. Ao assumir nossas responsabilidades sobre esta e todas as questões da sociedade, estamos de fato virando cidadãos e construindo uma nação de verdade.

Saiba mais sobre os 3Rs no site da Recicloteca

Assista outros vídeos da Mariana Kapps através do videolog dela.

Lei de Murici

Friday, August 20th, 2010

Em 2008, a Mariana Kapps, que freqüenta a Ecomarapendi há algum tempo, apareceu com a idéia de fazer uma filmagem sobre os 3Rs – Reduzir, Reutilizar e Reciclar. A idéia vinha atrelada a vontade dela de aproximar seus vizinhos através da coleta seletiva. Esta idéia já extrapolou e muito a dimensão da coleta seletiva. Hoje, ela busca “unir os vizinhos de bairro e de planeta”. Difícil? Pode até parecer, mas não é.

No meio das filmagens nos surpreendemos com uma pergunta que nos foi feita: você conhece a Lei de Murici? O que você pensa sobre isso?

Você sabe o que é a Lei de Murici?

Apesar de ser pouco conhecida, esta lei é muito praticada por todos nós. E na correria do dia a dia, nós arrumamos desculpas para não olharmos para o lado e ajudarmos outras pessoas. Estamos sempre tão preocupados com nós mesmos que nos esquecemos do resto do mundo. Atitude oposta ao que a Mariana e seus amigos fizeram.

Veja como a consultora ambiental da Ecomarapendi, Érica Sepúlveda, respondeu esta questão e tudo que foi falado sobre a Coleta Seletiva.

Semana que vem vamos colocar os vídeos sobre Reduzir, Reutilizar e Reciclar.

Assista outros vídeos da Mariana Kapps através do videolog dela.

Separe você também

Tuesday, August 17th, 2010

Com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, consumidores e cidadãos passam a ter responsabilidades sobre o lixo que produzem. Já não é mais suficiente o resíduo ser colocado do lado de fora das casas ou dentro dos condomínios para que a empresa de limpeza pública recolha. Mais que isso, essa nova lei traz novas compromissos. Entre elas está o nosso papel em separar os materiais para a coleta seletiva.

O que não é nada difícil, afinal, nós estamos sempre separando e selecionado coisas, como bem mostra o vídeo abaixo. Por que não fazer isso com relação aos materiais recicláveis?

Mas vale a pena colocar aqui algumas informações sobre como a coleta seletiva acontece no Brasil.

Ela é, via de regra, feita com apenas duas lixeiras: uma para o lixo e outra para todos os materiais recicláveis juntos. O que parece ser inapropriado é, na verdade, uma adequação à realidade logística, econômica e de caráter social da coleta seletiva urbana no Brasil.

Normalmente, as cooperativas de catadores não possuem caminhões, e quando possuem, eles não têm como passar no mesmo bairro várias vezes para coletar o material separado por tipo, como plástico, papel, vidro e alumínio. Isto, além de demandar tempo, traria um ônus financeiro que a maioria das cooperativas não tem como arcar. Assim, são eles que fazem a seleção dos materiais recicláveis em uma central de triagem, separando-os por tipo e excluindo o que não é reciclável, eventualmente destinado à coleta seletiva por descuido.

Por outro lado, para separar o lixo por tipo, seria necessária toda uma infra-estrutura nos condomínios e casas, gerando a necessidade de ter ao menos quatro lixeiras extras (papel, plástico, vidro e metal). O que seria bem mais caro e também complexo em casas pequenas. O conjunto de quatro lixeiras coloridas é mais indicado para locais públicos de grande circulação de pessoas e com grande potencial de geração de resíduos dos tipos indicados para as lixeiras.

Mas se, depois de separá-los nos coletores coloridos, você descobrir que eles foram misturados, não pense que seu trabalho foi em vão. Eles serão separados nas cooperativas em uma dimensão muito mais complexa do que nós teríamos capacidade de fazer. Só de plásticos, estes profissionais separam sete tipos diferentes. O que faz deles muito mais do que essenciais neste processo.

E nós podemos facilitar o trabalho de triagem separando o lixo do material reciclável.

Separe você também o seu reciclável!

Saiba mais sobre a Coleta Seletiva no site da Recicloteca e onde encontrar uma cooperativa perto da sua casa na seção “Quem recebe Recicláveis”.

Na seção “Início de conversa”, você pode descobrir o tamanho do problema que o lixo pode gerar.

Na conta do lixo

Thursday, July 15th, 2010

Eduardo Bernhardt


Eduardo Bernhardt é formado em biologia, é professor, educador ambiental e consultor do projeto Recicloteca da ONG Ecomarapendi. Há oito anos na Recicloteca, Bernhardt pesquisa, organiza e difunde informações sobre lixo, reciclagem e meio ambiente, além de ministrar cursos, palestras e oficinas sobre o tema. Nesta entrevista, ele fala sobre o impacto ambiental dos Resíduos Sólidos bem como sobre a “Filosofia dos 3Rs” – Reduzir, Reaproveitar e Reciclar.

1) Quais são os maiores problemas que as grandes cidades têm hoje pela falta de reciclagem do lixo?

Eduardo - O baixo índice de coleta seletiva e da reciclagem resulta em excesso de lixo nos depósitos, e mesmo nas ruas. É que coleta seletiva e reciclagem são mais estimulantes para que a população evite jogar lixo no rio, na rua ou num terreno baldio do que simplesmente expor que é falta de educação, por exemplo. Quando isso acontece temos entupimento de bueiros e enchentes, focos de animais transmissores de doenças (ratos, baratas, moscas e mosquitos) além de poluição ambiental que atinge o solo, as águas subterrâneas e até o ar (especialmente quando o lixo é queimado e/ou depositado em lixões).
Na verdade considero o prejuízo econômico o mais relevante problema da falta de reciclagem, e olha que sou ambientalista! Mas é o que mais me chama atenção. Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), a reciclagem pode economizar cerca de R$ 8 bilhões por ano. Hoje essa economia varia de R$ 1,3 a 3 bilhões anuais. O cálculo leva em consideração apenas aspectos econômicos e ambientais da geração, descarte e destinação de lixo. No fundo, o baixo índice de coleta seletiva e reciclagem refletem a falta de um gerenciamento integrado de resíduos sólidos que leve em consideração a gestão do lixo e não apenas recolher, transportar e guardar (como é hoje). Levando isso em consideração, a economia seria ainda maior, pois entrariam na conta os benefícios sociais de geração de emprego e renda, além de redução de danos à saúde da população. No gerenciamento investe-se em educação, informação, redução de desperdício, reaproveitamento, reciclagem, compostagem, aterro sanitário, descontaminação / segurança de resíduos perigosos e tudo o que possa racionalizar nossa relação com os resíduos. Numa estimativa bem especulativa, a cifra iria fácil a mais de R$ 10 bilhões por ano, mas quanto vale a qualidade de vida da população brasileira? Acho que vale bem mais que isso. Cuidar do lixo dá dinheiro para o país.

2) Como fazer para reciclar materiais como o chamado e-lixo, pilhas, óleo de cozinha, sacolas plásticas e outros materiais que prejudicam o meio ambiente?

Eduardo – O lixo eletrônico é bem frustrante. Não há lei que obrigue os fabricantes a recebê-los de volta. Algumas empresas recolhem por iniciativa própria os de suas marcas e empresas especializadas na desmontagem e recuperação dos materiais recicláveis os recebem, mas elas são raras e de alcance limitado. Na pergunta seis eu coloquei contatos variados de alguns estados que recebem pilhas, lixo eletrônico e óleo. Por enquanto, esses três dependem da iniciativa do consumidor para ter um destino correto. Se ele não levar pessoalmente a algum lugar especializado, vai tudo pro depósito de lixo. As sacolas plásticas ainda podem entrar na coleta seletiva convencional, mas o ideal é racionalizar o uso delas evitando o excesso que acaba virando desperdício. Aliás, vale a ressalva: as sacolas não são as vilãs do meio ambiente como se diz por aí. Sabendo usar e substituindo por retornáveis é possível reduzir o consumo e reutilizar na lixeira e em outras situações, na medida certa. Mais uma vez, afirmo que vale o equilíbrio.

3) Quais são as principais conseqüências para o meio ambiente ao se jogar estes materiais no lixo comum? Quanto tempo estes materiais levam para se decompor?

Eduardo – Pilhas e

Pilhas Sony AA Ultra Heavy Duty

lixo eletrônico contaminam tudo pela frente, ao lado, acima e abaixo também. A maior preocupação é o metal pesado que eles contem, pois ele não se degrada se acumula na cadeia alimentar e acaba chegando a nós, humanos de um jeito ou de outro. O óleo polui o solo e a água em que ele tiver contato. As sacolas jogadas em locais públicos entopem bueiros e contribuem para as enchentes. Quando elas se decompõem, a tinta do tingimento e das logomarcas contamina o solo e a água. Se queimadas, essas tintas viram dioxinas, substâncias altamente tóxicas que são carreadas pelo vento. Isso tudo está acontecendo agora mesmo por todo o Brasil. É efeito imediato e de longa duração, já que estes materiais demoram muitos anos para se decompor, o que nem é interessante, já que muito da contaminação vem da decomposição deles. O ideal é reciclar o que der e guardar isolado o que não puder ser aproveitado.

4) A curto prazo, quais os efeitos que a falta de reciclagem surtirá no planeta?

Eduardo – De imediato, o aquecimento global já cai na conta do lixo. Mais pela sua parcela orgânica, é claro, cuja decomposição gera o gás metano (CH4) que é 21 vezes mais estufa do que o gás carbônico (CO2). Em seguida vem a contribuição para a escassez de água potável, já que o modelo atual polui demais as águas superficiais e subterrâneas. A falta de espaço próximo às grandes cidades é um risco, pois o alto custo de construir aterros sanitários, que precisarão ser cada vez mais distantes, pode resultar em depósitos inadequados, implantados por cidades em que o licenciamento ambiental correto é substituído por “licenças relâmpago” de idoneidade duvidosa. Tudo em prol da ‘economia’ de recursos públicos. Assim mais contaminação ambiental pode ocorrer. A pressão sobre os recursos naturais, especialmente os não renováveis (metais, vidro, plástico) também pode aumentar muito resultando em escassez e alta no seu preço, além do aumento do impacto ambiental para explorar fontes destas matérias-primas que são de difícil acesso. Veja o caso da exploração submarina de petróleo e a tragédia que se abateu sobre o Golfo do México. A parcela de petróleo usada para fabricar plásticos ainda é pequena, mas tende a continuar aumentando. De qualquer forma, somos dependentes de recursos naturais que são desperdiçados com embalagens descartáveis de necessidade muito duvidosa.

5) O que já foi degradado no meio ambiente pode ser recuperado?

Eduardo -
Quase tudo. A recuperação é bem polêmica, pois não há consenso em algumas ‘recuperações’ que soam mais a engodo. Transformar lixão em aterro controlado é um dos engodos. Melhora, mas é uma melhora bem limitada. Há vários níveis de controle e lixões geralmente estão tão mal localizados que os impactos na vizinhança são difíceis de serem eliminados pra recuperar a qualidade de vida de quem vive nas redondezas. Além do mais é sempre mais caro, difícil e lento recuperar do que prevenir.

6) Quais são as alternativas para se reciclar pilhas, óleo de cozinha, e-lixo, sacolas plásticas e outros materiais?

Eduardo – Para fazer a coleta seletiva recomendo ler a seção de mesmo nome na página da Recicloteca. Separar para a coleta seletiva é facílimo, basta uma segunda lixeira para o material reciclável que deve estar limpo e seco. O critério de separação lixo úmido/seco resolve a maioria das dúvidas quanto ao que é e o que não é reciclável. Assim fica mais fácil e atraente separar o material.

Seguem, os contatos que mencionei na Questão 2.

Para destinação de pilhas:
Programa Papa Pilhas do Banco real

Para destinação de sucata eletrônica:
Em todo o Brasil – Comitê para Democratização da Informática (CDI)
No Rio de Janeiro – Sucata Eletrônica, PC Vidas e Repensar
Em São Paulo – Museu do Computador, Casas André Luiz, Recicomp, Lixo Digital e Oxigênio (Procure pelo projeto Centro de Recondicionamento de Computadores)
No Rio Grande do Sul – Pensamento Digital

Para destinação de óleo vegetal:
No Rio de Janeiro e em Recife: Cooperativa Disque Óleo Vegetal
Para o Estado do Rio de Janeiro: Programa de Reaproveitamento de Óleos Vegetais – Prove / INEA
Para Santo André (SP) – Instituto Triângulo

Entrevista concedida à jornalista Ana Rosas Alkmin, por e-mail, para a Revista Novas Ideias! – Polishop.

SOS – Coleta Seletiva

Wednesday, May 5th, 2010

Foto da cooperativa de catadores ACMR, Rio de Janeiro, RJ

“O que adianta o governo fazer uma campanha perguntando se eu sei para onde vai o lixo que produzo se eu faço a coleta seletiva e não consigo encaminhar para reciclagem?”.

Esse é o questionamento da Mariana Kapps, moradora de Laranjeiras no Rio de Janeiro e freqüentadora da Recicloteca. Um questionamento que vai além da sua realidade. Diariamente, a Recicloteca atende a pessoas de todo país que querem fazer coleta seletiva em suas casas, ruas, bairros e cidades. Mas elas enfrentam um grande problema – encontrar cooperativas de catadores, próximas de suas casas, que possam coletar esse material e destinar à reciclagem.

O exemplo do município do Rio de Janeiro é um caso típico do descaso público com os catadores. Entre 2007 e 2009, as quatro cooperativas que atuavam na zona sul do Rio de Janeiro foram desalojadas e tiveram que se mudar para a zona oeste, longe do seu local de trabalho original. A prefeitura carioca instituiu o “Choque de Ordem” o que impede as cooperativas de operarem com caminhões estacionados em determinadas ruas como pontos de entrega voluntária. A Companhia Municipal de Limpeza Urbana (COMLURB) prometeu estruturar a coleta seletiva em parceria com as cooperativas, algo que ainda é apenas uma promessa.

A indignação da Mariana Kapps procede:

“Afinal…o que adianta o cidadão fazer a sua parte, saber exatamente para onde vai o lixo que produzimos se não conseguimos encaminhar devidamente?? Depois vem uma série de propagandas e programas dizendo que temos que fazer a nossa parte para evitar os danos do aquecimento global. Realmente….fica difícil acreditar num mundo melhor!”

Mas temos um papel importante neste processo. Além de instigar discussões sobre o tema e divulgar informação, como a Mariana fez em seu videolog, temos que demandar do poder público:
- Educação dos cidadãos na perspectiva dos 3R’s
- Implantação da coleta seletiva em todas as cidades
- Incentivo à indústria da Reciclagem.

Faça você também o seu papel!
Informe-se sobre os catadores, cooperativas e a coleta seletiva de sua cidade.
Veja no site da Recicloteca informações sobre os 3Rs, “Coleta seletiva” e a seção “Quem Recebe Recicláveis”.

Assista aos vídeos da Mariana.

Divida conosco sua experiência com a coleta seletiva na parte dos comentários!

Conceitos: cada coisa é uma coisa

Tuesday, April 20th, 2010

O caos provocado pelas enchentes na região metropolitana do Rio de Janeiro e que colocaram as questões ambientais, mais uma vez, na mídia deflagraram um outro problema: nem sempre as pessoas, especialmente os jornalistas, estão familiarizadas com os conceitos ambientais.

Constatamos frequentemente uma confusão geral sobre alguns destes conceitos, como os exemplos assinalados abaixo:

Lixão sendo tratado como se fosse aterro controlado ou sanitário.
Conflito entre os termos aterro controlado e aterro sanitário, assim como reaproveitamento e reciclagem.
O termo “lixão irregular” é utilizado como se existissem lixões regulamentados.
Plástico oxi-biodegradável e biodegradável não são sinônimos.
Relatos de pessoas que participam da coleta seletiva como se elas fizessem de fato a reciclagem. Na verdade, a coleta seletiva é uma etapa do processo de reciclagem, e não a reciclagem em si.

Para um melhor entendimento destes termos, estamos colocando abaixo algumas definições da bióloga Patrícia Mousinho disponíveis no livro Meio Ambiente no Século 21, organizado pelo jornalista André Trigueiro e uma do site da Recicloteca.

Inicialmente, vamos apresentar os significados das palavras lixo, lixão, aterro controlado e aterro sanitário.

Lixo ou Resíduo Sólido – Qualquer material resultante de atividades humanas descartado ou rejeitado por ser considerado inútil ou sem valor. Pode estar em estado sólido ou semi-sólido e ser classificado de acordo com a sua composição química (orgânico ou inorgânico), sua fonte geradora (residencial, comercial, industrial, agrícola, de serviço de saúde etc.) e seus riscos potenciais ao ambiente (perigosos, inertes e não inertes). (Meio Ambiente no Século 21).

Lixão – Forma inadequada de disposição final de resíduos sólidos, em que o lixo é depositado diretamente no solo, sem qualquer técnica ou medida de controle, com sérios impactos ao ambiente e à saúde humana. Dentre os impactos causados estão a proliferação de vetores de doenças (mosca, mosquitos, ratos etc.), a geração de odores desagradáveis e a contaminação do solo e das águas pelo chorume. Os riscos de contaminação são agravados pelo desconhecimento da origem do material descartado, podendo estar presentes resíduos perigosos. (Meio Ambiente no Século 21).

Aterro controlado – Para tentar amenizar os depósitos a céu aberto foi criada a categoria de aterro controlado. Na realidade a nomenclatura mais adequada seria “lixão controlado”. Neste sistema, há uma contenção do lixo que, depois de lançado no depósito, é coberto por uma camada de terra. Esta forma de disposição minimiza o mau cheiro e o impacto visual, porém, não dispõe de impermeabilização de base (contaminando o solo e o lençol d’água) nem de sistema de tratamento do chorume ou do biogás. (Recicloteca)

Vale a pena assistir o vídeo abaixo e ver um lixão que virou um aterro controlado. Neste caso, a nomenclatura “lixão controlado” é muito mais que verdadeira.

Aterro sanitário – Forma de disposição final de resíduos sólidos que oferece um conjunto de normas operacionais e critérios técnicos de modo a evitar riscos à saúde pública e ao ambiente. Os resíduos são depositados em terrenos impermeabilizados e a seguir compactados e recobertos por camadas de terra. Deve haver dispositivos para drenagem superficial de água, captação e tratamento de chorume (liquido de alto potencial poluidor proveniente da decomposição da matéria orgânica presente no lixo) e captação e tratamento de gases provenientes da decomposição do lixo (principalmente metano e dióxido de carbono). Um aterro sanitário deve contar com monitoramento ambiental e geotécnico permanente, além de um plano de encerramento de suas atividades. (Meio Ambiente no Século 21).

Aterro Sanitário. Fonte: CTR Nova Iguaçu

Esses conceitos representam apenas um pequeno universo de tudo o que o leitor pode buscar de informações.

Mais definições nas próximas mensagens.

Se quiser saber mais sobre o assunto “lixo”, acesse a seção Inicio de Conversa no site da Recicloteca.

Veja também o blog do jornalista André Trigueiro: Mundo sustentável

Dados do livro:
TRIGUEIRO, André (org.). Meio Ambiente no Século 21: 21 especialistas falam da questão ambiental nas suas áreas de conhecimento. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.

25 anos de Coleta Seletiva em Niterói, RJ

Wednesday, April 14th, 2010

Centro Comunitário de São Francisco

Falar sobre coleta seletiva hoje já se tornou algo corriqueiro. Todos sabem do que se trata e já é comum as pessoas saberem quais materiais são recicláveis e buscarem informações sobre o local para destiná-los. Entretanto, no Brasil, esta história ainda é recente.

A iniciativa pioneira neste assunto começou há 25 anos no bairro de São Francisco, Niterói, cidade da Região metropolitana do Rio de Janeiro. O professor Emilio Eigenheer da Universidade Federal Fluminense (UFF) iniciou seus trabalhos no Centro Comunitário de São Francisco (CCSF) em abril de 1985 em uma parceria com a própria UFF, que perdura até os dias de hoje. Além desta, o programa conta também com a apoio da AmBev.

Ao longo da sua história, o CCSF, que se tornou um modelo para implantação da coleta seletiva em várias cidades do país, já coletou cerca de seis mil toneladas de materiais. Mensalmente, os seis trabalhadores do CCSF recolhem e fazem a triagem de 25 a 30 toneladas de recicláveis de 1.200 a 1.400 residências dos bairros de São Francisco e Charitas. Nestes bairros a coleta seletiva acontece de segunda à sexta com roteiro pré-determinado.

Mas o professor Emílio ressalta que a experiência conduzida por ele não visa o volume. A meta é ser um laboratório de experiências que possam ser estudadas, melhoradas e replicadas para outros lugares do país. Por isso mesmo, o CCSF atrai não apenas estudantes da própria UFF como de outros países que vem conhecer a iniciativa, gerando produção acadêmica em torno dos temas resíduos sólidos, coleta seletiva e reciclagem.

Eigenheer destaca a quantidade de materiais de cunho cultural que são descartados pela população como documentos, livros, revistas, fotografias e mapas. Ao longo dos anos já encontrou títulos dos séculos XVI e XVII. Hoje mesmo (14/04/2010), separou três livros de 1840 do autor francês Alexandre Dumas. Documentos com valor histórico cultural são destinados ao Centro de Memória Fluminense, em Niterói. Até hoje já foram doados três mil títulos a esta instituição. Outros livros são vendidos a sebos e os materiais sem valor cultural ou de mercado, são destinados à reciclagem de papel.

Pra participar da coleta seletiva ou obter mais informações sobre os trabalhos do CCSF é preciso entrar em contato através do telefone (21) 2714-1141 (secretária eletrônica ou sinal de fax) ou pelo e-mail ccsf@vm.uff.br.

Visite o site do Centro Comunitário de São Francisco (CCSF)

Conheça o Centro de Memória Fluminense

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