Apesar das perspectivas positivas que a Política Nacional dos Resíduos Sólidos e o Pacto pela Reciclagem (compromisso estabelecido entre a Prefeitura do Rio e o Governo do Estado do Rio de Janeiro) trazem para o desenvolvimento de uma gestão de resíduos mais adequada em termos sócio-ambientais, a realização da coleta seletiva no município do Rio de Janeiro ainda é um desafio.
Hoje, a atividade de reciclagem no Brasil é alimentada em grande parte pelo trabalho de catadores e cooperativas. E para cumprir com seus compromissos de coleta, arcam com custos relativamente altos, especialmente no que tange ao transporte de materiais, e acabam tendo uma renda líquida muito baixa.
Na reportagem da revista “Razão Social”, do jornal O Globo, encontramos exemplos de como a articulação direta entre grupos da sociedade e cooperativas de catadores pode resultar em situações de ganho total. Condomínios e residências – mesmo que não sejam atendidos pela coleta seletiva da Comlurb – conseguem ter seus recicláveis adequadamente destinados. E as cooperativas de catadores têm quantidades cada vez maiores para coletar em um mesmo local ou região, fazendo com que seus custos de operação sejam otimizados.
Disponibilizamos abaixo a reportagem do caderno Razão Social do jornal O Globo. Boa leitura!
Lixo Como ativo Social
Condomínios no Rio fazem parceria com catadores para dar
destino correto a recicláveis na cidade
Camila Nobrega – camila.nobrega@oglobo.com.br

É terça-feira, e uma faixa na entrada do condomínio Fazenda Passaredo, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, lembra aos moradores: “Hoje é dia de coleta seletiva”. Antes do fim da tarde, quando o caminhão da cooperativa de catadores BarraCoop passa, a professora Maria Aparecida França, moradora e coordenadora do centro de meio ambiente do local, faz uma caminhada por todo o condomínio, contando quantas casas deixaram o lixo reciclável na porta. Quando há um novo adepto, é motivo de comemoração. O Fazenda Passaredo fica numa área ainda não atendida pelo sistema público de coleta seletiva da Comlurb, mas, por conta da parceria com a Cooperativa, deixa de enviar ao Aterro de Gramacho cerca de uma tonelada de lixo por semana e dá sustento a dez famílias de catadores. Iniciativas como essa são meninas dos olhos de especialistas de resíduos na cidade. Ao lado do novo aterro sanitário que vai receber o lixo dos cariocas em Seropédica a partir de 2011, são formas de criar uma gestão mais sustentável de resíduos, tendência que vai virar obrigação após a regulamentação da Política Nacional de Resíduos sólidos do país, ainda este ano.
O que fez Aparecida começar a agir foi o fato de ela ver, durante anos, a Comlurb misturar todo o lixo, mesmo o reciclável, e levar tudo para um único lugar, o Aterro de Gramacho. Há cerca de um ano, ela e 15 moradores voluntários descobriram que era possível montar um sistema de coleta seletiva diretamente com cooperativas.
- É muito gratificante. Agora sabemos para onde vai nosso lixo, e buscamos sempre reduzi-lo. Quando se começa com uma ideia, surgem várias outras e, muitas, como a parceria com a cooperativa, são simples.
Lidar com o lixo é um desafio, e cada vez descobrimos mais alternativas – contou Aparecida.
A BarraCoop está sendo beneficiada desde dezembro de 2009, recolhendo o lixo reciclável doado pelo condomínio e, segundo Aparecida, a coleta funciona muito bem. Mas o início do projeto de gestão do lixo no local foi bem antes, em 2007, quando o Centro de Meio Ambiente foi criado. O primeiro passo foi a compostagem a partir de resíduos orgânicos, que hoje serve de adubo para canteiros de plantas e hortas do condomínio.
Com isso, o Fazenda Passaredo deixou de enviar para Gramacho toneladas de resíduos por mês, como folhas, galhos e até plantas que eram descartadas.
Depois, ainda vieram os projetos de doação de óleo de cozinha para produção de sabonete para outra cooperativa, e um laboratório de recuperação de plantas. Segundo Aparecida, o objetivo no condomínio é chegar ao lixo zero. Ele já foi premiado duas vezes pelo Sindicato da Habitação do Rio de Janeiro: – Até o ano passado ainda saíam resíduos de jardinagem e até troncos daqui. Agora isso acabou.
Só o lixo de cozinha e de banheiro ainda são problemas difíceis de resolver em um condomínio.
Mas estamos investindo na educação das nossas crianças e jovens. Não falta informação.
A parceria direta com os catadores também é opção em bairros já atendidos pela coleta seletiva da Comlurb. A vantagem é que se diversificam os catadores beneficiados (a Comlurb só tem cinco cooperativas cadastradas), como no caso do condomínio Solar das Laranjeiras, que leva o nome do bairro onde fica, na Zona Sul do Rio. Há pouco mais de um ano, os moradores buscaram uma cooperativa que havia anunciado no jornal, a Coopar, e iniciaram a parceria.
A diferença é que, nesse caso, o prédio não doa os materiais, mas cobra um preço baixo aos catadores.
Segundo o síndico, o aposentado De Sordi Roncetti, no início os catadores passavam no prédio uma vez ao mês, e hoje já passam quase semanalmente: – A quantidade de recicláveis tem crescido muito. Os moradores estão colaborando, porque veem que os resíduos têm bom destino. E os funcionários são motivados, porque o dinheiro que recebemos da venda dos materiais é revertido para eles. Quando a cooperativa chega, já está tudo separado.
Em dia de coleta, a visita é mesmo rápida, mas suficiente para que o síndico e os funcionários mantenham uma boa relação com os cooperativados, que deixam de ser generalizados como catadores, e ganham nomes e histórias próprios. No caso do Solar das Laranjeiras, por exemplo, o responsável é o presidente da Coopar, Jorge Souza: – Quando as pessoas começam a entender todo o mercado que existe por trás do lixo, passam a dar mais valor ao nosso trabalho. E, pegando na fonte, a gente não fica na mão dos atravessadores.
Mas ainda tem muita gente que não colabora. Tem prédios que querem participar, mas não conseguimos dar continuidade, porque eles não juntam material suficiente – disse.
Os catadores da Coopar saem da Ilha do Governador, onde fica a sede da cooperativa, e fazem o longo percurso até Laranjeiras praticamente toda quinta-feira. Mas as visitas poderiam ser mais frequentes, por exemplo, se houvesse mais condomínios adeptos no bairro. Para as cooperativas, o custo da logística de coleta é alto, já que, por enquanto, não há apoio da prefeitura.
Esse foi o principal motivo de um projeto ousado da Associação de Moradores de Ipanema (Ami), também na Zona Sul do Rio, ter fracassado. Intitulado Programa de Coleta Seletiva Solidária, o projeto foi lançado no final de 2009, e conseguiu adesão de 20 condomínios do bairro, que destinariam seus resíduos para a Cooperativa de Catadores do Complexo do Alemão (CoopCal). De acordo com o responsável pelo programa, Rafael Durão, durante quatro meses a coleta funcionou bem, com caminhões que eram bancados pela própria Ami, e a quantidade de resíduos saltou de 700kg para 1,5 tonelada por semana. Mas, sem apoio de empresas ou da prefeitura, não foi possível manter a coleta: – Foi um programa piloto e funcionou muito bem, principalmente porque sabíamos que os resíduos estavam sendo doados a uma cooperativa muito necessitada. Eles foram responsáveis, passavam no dia certo. Mas não conseguimos apoio dos condomínios ou de empresas da região para manter a parceria, aí não deu para co ntinuar.
Para a consultora ambiental da Recicloteca da ONG Ecomarapendi, Bruna Beck, o difícil é que as pessoas entendam o valor social de uma parceria como essa, e a responsabilidade que cada um tem de dar destino certo aos seus resíduos. Segundo Bruna, é preciso lembrar que a coleta seletiva no Brasil, hoje, depende do trabalho dos catadores: – Quando há parceria com os catadores, especialmente se é doação, é maravilhoso. As empresas, por exemplo, que são grandes geradoras, pagam pela coleta do seu lixo e poderiam até economizar com uma parceria dessas. Mas é necessário dar apoio ao catador, pois ele está fazendo um trabalho que é bom para todo mundo. Os resíduos são muito nocivos à saúde humana e ao planeta.
De acordo com a consultora, as cooperativas pagam diárias de caminhões de mais de R$ 200 para cada dia de coleta, além de outros custos. Mas o governo estadual e a prefeitura do município prometem começar a mudar essa situação ainda este ano. No início de agosto, ambos assinaram o Pacto da Reciclagem, que contou ainda com o Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclável, a Firjan e administradores de condomínios da cidade, para ampliar a reciclagem no Rio. Hoje, apenas 3% do lixo do município são destinados para este fim. Segundo o subsecretário estadual do Meio Ambiente, Gelsom Serpa, o objetivo é dar estrutura à Comlurb e aos catadores: – O estado vai apoiar a prefeitura, disponibilizando galpões para a triagem dos recicláveis. Vamos estabelecer também um valor mínimo a ser pago aos catadores por serviços ambientais e o município vai iniciar uma campanha com os administradores de condomínios para dar força à coleta seletiva.
As medidas vêm na esteira da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que foi aprovada no Congresso em julho e prevê responsabilidade compartilhada por todos os agentes na gestão de resíduos, incluindo moradores e empresas. A lei deve ser regulamentada em novembro e traz exigências como ampliação da coleta seletiva no país, e o fim dos lixões a céu aberto num prazo de quatro anos.
Como destinar o lixo corretamente
PARCERIA COM CATADORES: O projeto Recicloteca, da ONG Ecomarapendi, dá informações sobre cooperativas de catadores que possuem estrutura para fazer coleta seletiva na cidade (recicloteca.org.br). Outra opção é o site do Compromisso Empresarial para Reciclagem ( cempre.org.br). ou da Companhia de Limpeza Urbana do Rio Comlurb (comlurb.rio.rj.gov.br)
EMPRESAS: Algumas empresas já possuem coleta seletiva em parceria com catadores. É o caso do projeto Rio Sustentável (riosustentável.org), que chegou a restaurantes e casas de show do Pólo Rio Antigo, na Lapa, e agora será implantado por restaurantes da Zona Sul.
COOPERATIVAS: BarraCoop (tel: 34146985 ou 82578169), Coopar (78484761 ou 3888-5514) e CoopCal (3882-4390 e 9284-8228)
Veja a reportagem no site do jornal O Globo
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